ETERNIDADE E EVOLUÇÃO

Não é mais possível ver o mundo, a vida o Universo como algo imutável. A ciência embora com uma visão evolucionista da realidade, ainda carece de transcendência em todos os níveis. O mundo-máquina concebido pela física, surgiu no sec. XVII e foi criado por Deus e de acordo com suas vontades e leis imutáveis. No entanto poderia se esgotar, necessitando ser ajustado por Deus como um relógio. No início do sec. XIX esta máquina teoricamente foi revisada e passa a ser animada, ou seja, tem movimentos determinados e previsíveis. Para os cientistas, entre eles Pierre Laplace, Deus tornou-se dispensável para regular a máquina, assim como sua obra. Perto do final do sec. XIX, o mundo máquina precisava de combustível. Os princípios da termodinâmica demonstraram que o Universo evoluiria em direção a uma morte térmica final. E não poderia contar com o Deus que o criou para dar uma nova arrancada. Chega o séc. XX e a física transcende, revoluciona.

O determinismo rigoroso da teoria mecanicista do lugar a uma ciência de probabilidades. Tudo é energia, até o vácuo deixou de ser vazio. A física quântica e a relatividade dão ao mundo a concepção de movimento cósmico, de campos de energia. Einstein ajustou as suas equações de maneira a dotar o Universo de uma estabilidade eterna. Teve que modificar suas equações para incluir a constante cosmológica. A ciência a partir dos anos 60 passa a considerar que tudo evolui: os insetos, animais, plantas, pessoas, culturas, economias, ciência, tecnologia etc. Fazendo um retrospecto histórico percebe-se que tudo passou pelo processo de transformação, evolução. Fomos educados no decorrer da história para aceitar que o mundo era estático, físico, imutável e mais recentemente a mudança de paradigma evolutivo. Estes dois modelos de mundo ainda coexistem em muitas culturas e em muitas pessoas. Charles Darwin e os biólogos tiveram que repensar a ideia de mundo mecânico onde os organismos vivos também são vistos como máquinas.

Para Darwin os aspectos da vida são frutos do acaso, seguem o poder da seleção natural. Entre os darwinianos há os que negam a realidade da evolução e outros que consideram o mundo-máquina eterno processo evolutivo universal. Para Teilhard de Chardin o processo evolutivo tem um objetivo final. Para os mecanicistas como Bertrand Russel não tem objetivo visado, tudo termina no túmulo, ou seja, com a morte. Inúmeros pensadores modernos como Jacques Monod, reforça que o ser humano deve encarar sua solidão o seu isolamento, a indiferença… Vive a margem de um mundo estranho e surdo aos seus sofrimentos ou crimes. No entanto as teorias cientificas também mudam, e nas últimas décadas a visão da vida na terra é evolutiva, em desenvolvimento, faz parte de um processo evolutivo cósmico. Atualmente a grande parte dos cosmólogos considera que o Universo é resultado de explosão inicial a milhões de anos e que continua em expansão.

O responsável por esta explosão é o fenômeno conhecido como Big Bang. Na hipótese da expansão indefinida o Universo poderá ultrapassar um limite crítico e então começará um processo inverso, ou seja, a contrair-se, o Big Crunch, seria como voltar a uma eternidade repetitiva. Temos duas vertentes; os que apostam num Universo em expansão interminável e os que apostam num Universo inflacionável e que em determinado momento terá que implodir e se dividir. O modelo inflacionista coincide com o modelo “standard”. Este modelo a partir de uma singularidade inicial tornou-se múltiplo e na sequencia as formas foram ficando cada vez mais complexas e se diferenciando conforme a expansão do Universo. Como se percebe esta visão está muito distanciado da teoria clássica do Universo mecânico. Paul Davies é um dos defensores desta teoria do simples para o complexo, do primitivo para o atual. Alguns cosmólogos consideram que o Universo como conjunto, passou e passa por fases e tem um propósito final. Discute-se se as leis da natureza evoluem ou são imutáveis? Elas existiam antes da formação do Universo?

Parece que o conceito das leis da natureza é metafórico. No sec. XVII a metáfora era explicita, ou seja, eram concebidas por Deus, imutáveis, validas para todo o sempre. Hoje parecem ainda misteriosas, embora regem a matéria e o movimento, transcendem pois não são nem uma coisa nem outra. Se considerarmos as leis sociais humanas que se desenvolvem e evoluem de acordo com a necessidade modificando as circunstâncias e que manifestam situações novas. Assim as velhas leis são extintas para dar lugar as novas. Questiona-se quem criou as leis, quem as regula, as preserva? Os filósofos dirão que são as teorias e hipóteses sediadas no espírito humano. Portanto não faz sentido questionar quem as criou e como são preservadas. Poderia ser comparado aos hábitos que se desenvolveram com o tempo. Esta hipótese foi concebida dentro de um espírito evolucionista. C. S. Peirce filósofo Americano, observou que a ideia de leis fixas é incompatível com a ideia evolucionista, sendo mais semelhante com hábitos por se desenvolver espontaneamente. Para Peirce, “a lei do hábito é a lei do espírito” e reforçava que o cosmo estava vivo. Hábitos reforçados são muito difíceis de ser eliminados. Freidrich Nietzsche complementa que além das leis da natureza evoluir, também estão sujeitas a seleção natural. Willian James corrobora com Peirce quando diz que “se considerarmos que longinquamente quando o Universo foi verdadeiramente caótico as coisas foram de forma rudimentares, mas coerentes se organizando pelos hábitos”. A teoria geral da relatividade de Einstein sobre o Universo se contrapôs ao de Universo eterno, rígido e de leis eternas, por um Universo com leis relativas, embora tendo como pano de fundo leis imutáveis. A biologia também explorou a noção de hábitos por considerar que os antepassados da espécie legam uma memória aos seus descendentes. Samuel Butler concluiu a mais de cem anos, a matéria incapaz de se lembrar está morta, só a matéria viva tem memória. Pouco tempo depois a Unconscious Memory considera que cada átomo conserva a lembrança de determinados antecedentes. Os embriões humanos passam por fazes que lembra o peixe até espécies mais próximas. Esta discussão entre os biólogos também perdeu força por se apoiar em termos mecanicistas. Os genes químicos e a síntese de proteínas especificas tem seu valor, mas não explicam certos comportamentos das aves, assim como não dá conta do funcionamento da memória e da natureza do espírito. Os cientistas buscam descortinar os pontos obscuros dos modelos físico-químicos da matéria ou os campos de energia para compreender o que está além. Acredita-se que para desvendar os mistérios das leis da natureza será necessário resgatar velhas hipóteses, recapitular os caminhos da história e se permitir transcender o tempo e o espaço.

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Lili Marlene Gobbi

Psicóloga - Parapsicóloga - Psicoterapeuta - CRP 08/10486

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